Universidade de Brasília - Instituto de Artes - Departamento de Música

Teorias Contemporâneas da Música

Professor: Paulo Guicheney
Alunos: Iracema Simon 04/32296
Rogério Miotti
Eduardo Belo
David Pennington

Brasília, 28 de junho de 2007.

Sérgio Nogueira iniciou seus estudos musicais com o violão tocando os “rocks adolescentes”. Gostava tanto de música que quis seguir a diante nos estudos e entrou para a Escola de Música de Brasília onde iniciou seus estudos em Viola Clássica por causa do mercado de trabalho. Logo que iniciou seus estudos já foi colocado na orquestra do Teatro Nacional, pois não havia violistas suficientes. Começou a se interessar por composição e entrou para a Universidade de Brasília.

Graduou-se em Composição e Regência na Universidade de Brasília, sob orientação de Claudio Santoro, Emílio Terraza e Luiz Mucillo. Em 1995, venceu o Concurso de Composição promovido pela Orquestra Camargo Guarnieri (USP), com a obra “Cinco Movimentos para Orquestra de Cordas”. Em 1999, recebeu o título de Mestre em Musicologia na Uni-Rio, desenvolvendo intensa pesquisa sobre a obra do maestro Claudio Santoro. Ao lado de compositores que lecionaram na UnB, teve uma obra se sua autoria (“Quatro Prelúdios para Piano”) gravada no cd “Compositores da Universidade de Brasília”. Atualmente, integra o corpo docente do Departamento de Música da UnB, onde leciona disciplinas o curso de Composição Musical como: composição, instrumentação e orquestração, contraponto e fuga, e percepção.

Entrevista

1- O que fez você se tornar um compositor?

Bem, a minha origem musical é totalmente vinculada a música popular, eu não tive formação musical oficial quando era garoto entrei na música brincando de tocar com os colegas e violão embaixo do bloco. Minha geração de garoto era dominada pelo rock essa que era a referência. Na medida em que me identifiquei com aquilo e fui levando mais a sério e comecei a aprender a tocar melhor, era sempre música popular, chegar ao ponto de partir pra música brasileira, instrumentos de corda em geral: violão, guitarra, cavaquinho, bandolim. E ainda na música popular me interessei em estudar música na Escola de Música de Brasília, me disseram que lá seria o lugar no qual eu poderia me especializar como instrumentista. E lá estavam precisando de violista, sempre tinha cello, violino e não tinham viola, então comecei a estudar viola, em seis meses de viola já estava tocando na orquestra da escola, eu era o único violista lá.E ai eu acabei por deixar a música popular. Aos pouquinhos ela foi perdendo espaço, porque como desde cedo eu pensava em viver de música, aos poucos eu fui percebendo que a música erudita seria um terreno mais sólido para caminhar. Porque você tem um curso, um lugar pra dar aula, uma vida de um profissional contratado, um professor ou coisa que o valha. E a música popular é muito incerta, você pode se dar muito bem ou você pode ficar de fora. Aí entrei na Universidade de Brasília tocando viola e desde essa época, quando eu comecei a conhecer o repertório da música erudita, eu nunca consegui me identificar com música clássica ou romântica. Minhas escolhas sempre foram muito extremas, ou do Barroco para trás ou era música do modernismo pra frente, eu não sei explicar, eu ouço diferente as coisas da maioria das pessoas, a coisa mais óbvia, o repertório mais óbvio, me incomoda . Obviamente que eu estudo, sei da importância, ninguém melhor do que eu pra dizer o quanto e necessário o músico conhecer Beethoven, conhecer Mozart.

Então a questão da composição tem muito a ver com a música popular, eu já compunha música popular, quando eu entrei na música erudita a idéia da composição sempre foi presente, nunca foi uma coisa que apareceu. Sempre esteve comigo, por isso um interesse maior pela música do século XX.

Entrei na licenciatura na UnB, fiz todo o curso de viola, só não fiz o recital de formatura, pedi então a dupla opção para a composição. Estudei os primeiros semestres com o Cláudio Santoro, depois ele faleceu, então veio um professor visitante da argentina um pianisa excelente, compositor premiado, um cara super culto, Luiz Mucillo, a gente se deu muito bem tínhamos aulas longas e aproveitei pra terminar meu curso, ele era um grande fanático da segunda escola de Viena, a música do século XX pra ele nasce ali, mas ele nunca me forçou a compor daquele jeito, ele sempre permitiu que eu me expressasse da forma que eu achasse melhor.

2- Você acha que interfere na aula o aluno querer compor em um estilo diferente do professor?

Eu tenho uma posicao hoje diferente. Há alguns anos quando eu estava dando aulas de composição eu achava que a gente tinha que passar técnica e conteúdo também, mostrar referencias musicais substanciais, como Strawinsky, Bartok, e o aluno tinha que compor daquele jeito. Com o tempo eu vi qual mão-de-obra era essa postura, eu nunca consegui nenhum resultado assim. Hoje eu penso diferente. Eu continuo achando que não posso passar técnica somente, a técnica só se concretiza quando você da o material junto, a técnica aplicada na música, de que valeria a técnica somente?! Então, você acaba mostrando as suas filiações, as suas referências, no meu caso, e sempre Bartok, Strawinsky. Mas e só uma opção, uma coisa de escolher, eu podia escolher outros compositores, outras referências mais atuais e tal. Mas eu acredito que quando você esta passando técnica, não importa o compositor que eu estou abordando, a minha idéia hoje é que o aluno possa absorver a idéia em si e aplicar no que achar mais conveniente pra ele.

3-O que você pensa de música popular? E como você vê essa separação de música erudita e música popular?

No nosso caso aqui, eu tenho que saber do que você esta falando quando fala em música popular, obviamente que eu não estou falando de música popular comercial, isso ai pra mim não existe do ponto de vista de alguma coisa que valha a pena ser apreciada do ponto de vista artístico, porque você ouvir Ivete Sangalo, me desculpa, pra mim eu não estou ouvindo arte, estou ouvindo lazer. Eu respeito que você esteja afim de curtir, se divertir, beleza, mas depois de seis meses ninguém vai saber aquela mus mais e acabou. Então eu estou me referindo a uma música popular que tem mais a ver com a música instrumental, não precisa ser necessariamente instrumental, mas a música mais representativa é a instrumental baseado na linha do jazz, ai no Brasil a gente tem compositores que tem um pouco dessa referência jazzistica, um Gismonti, Hermento Pascoal, os músicos de chôro e se a gente expandir um pouco mais a gente inclui Tom Jobim, Edu Lobo, uns caras assim, um Milton Nascimento, o Milton até que hoje ele vulgarizou um pouco, ele já fez música muito mais tentando se aprofundar numa pesquisa musical, de incluir músicas que vão além daquele círculo fechado da música popular.

Então a música popular a que eu me refiro é a música que tem um contato bem forte com a música erudita em termos de estrutura. Tom Jobim, por exemplo, tem passagens que saíram de Villa-Lobos.

4- Pra você qual e a barreira que separa a música popular da música erudita? em Tom Jobim, por exemplo?

E difícil separar, há compositores que ficam ali no meio da linha. Jazzistas por exemplo que estão tão próximos do erudito que um ouvinte facilmente aceitaria que ele estaria interpretando uma sonata do Hindemith ao invés de improvisar. A música erudita está tradicionalmente vinculada a uma escrita que vai passando de geração em geração registrada por meio de partitura. O músico popular, por mais que hoje em dia esteja mais instruído capaz de ler uma partitura, ele não vive dela, ele utiliza um outro tipo de leitura da partitura, que por sua vez é uma referência muito distante do que vai acontecer realmente. Você pode colocar uma cozinha de jazz em Strawinsky, tocar Bach como se fosse chôro, é difícil de estabelecer essa divóoria. Cláudio Santoro, que eu estou estudando, ele tem aquelas canções baseadas em poemas de Vinicius de Morais, e aí, elas são eruditas ou populares? Tem gente gravando como se fosse música popular. Lá no Rio de janeiro tem gente colocando uma harmonia de jazz que assim vira música popular. Você vê o barítono cantando e o pianista tocando exatamente o que esta escrito, daí já e música erudita

5- Quantas peças você tem? Fale um pouco sobre a peça que você trouxe pra gente, e o processo de criação.

No meu curso de composição eu optei ao invés de já compor as minhas obras eu optei em fazer um aprendizado formal dentro da seqüência histórica. Meu professor, mesmo sendo muito voltado pra música do século XX, aceitou a minha proposta. Eu fiz: fuga barroca, sonata clássica, fiz um quarteto estilo Brahams (foi uma das coisas que eu gostei) eu fiz peças de combinações variadas em todos os estilos, desde a música barroca ate início do século XX. Tudo isso foi um simples treinamento, eu sabia que estava fazendo uma música que não tinha valor estético nenhum, eu tava aprendendo com aquilo. De tudo isso que eu fiz na graduação ficaram apenas 4 prelúdios que tem a linguagem do Scriabin no final, a linguagem já quase atonal do Scriabin como referência. Eu analisei muitos prelúdios do Scriabin e escrevi a partir daquele idioma.Então o que foi feito pra trás eu guardei como lembrança. Então tem esse conjunto de prelúdios, Uma peca que foi premiada num concurso de composição em São Paulo que são movimentos para orquestra de cordas, tenho uma peça para Trombone e Piano, eu tenho esses duetos que foram encomendados pro disco do duo [Magyar, Paulinyi & Oliveto] daqui de Brasília, Tenho a sonatina pra oboé e mais umas duas ou três composições. Eu compus muito pouco por vários motivos. Eu componho muito lentamente, eu componho ao piano, numa manhã eu consigo escrever 30 compassos, daí no dia seguinte eu vou ouvir aquilo de novo e vou apagar 15 ou ate mesmo todos os compassos. E também porque como professor do departamento eu assumi muito a tarefa de colaborar com o departamento dando boas aulas, e isso toma muito tempo. Então e difícil, porque quando eu estou compondo eu me dedico, eu não faço nada mais direito, eu não me relaciono nem com a minha família direito, eu não tenho tempo,eu fico horas trancado numa sala, eu não preparo aula direito, então eu sempre escrevi músicas em situações bastante especiais. A sonatina para oboé foi uma aluna que ia se formar e me pediu que escrevesse algo, escrevi os dois primeiros movimentos, depois gostei e escrevi os outros dois. Estive envolvido com o mestrado, voltei a dar aulas, agora o doutorado... estou sem escrever uma linha há dez anos praticamente. E pra falar a verdade eu nem sei se eu vou continuar me dedicando muito a composição. Eu me sinto mais útil trabalhando na aula de composição, trabalhando com a música de outros compositores, análise de compositores voltada para um aluno de composição, ou seja, eu posso trabalhar muito melhor como professor de composição conectando, mostrando as coisas e abrindo caminhos pros alunos que dedicando minhas horas preciosas a ficar trancado num quarto escrevendo uma peca que vai ser tocada uma vez e depois nunca mais vai ser tocada. Eu acho isso muito frustrante, tem muita coisa que anda fazendo eu olhar para a composição um pouco desconfiado,

6- Como você classifica sua música, em que estilo ela se encaixa?

Hoje em dia a gente tem dois caminhos, se a gente supõe que a música é uma linguagem e que no século XX vários idiomas foram sendo criados, cada compositor foi escolhendo seu idioma e, às vezes até criando seu próprio idioma. Eu acho que o público em geral, o público não está preparado para uma música mais complexa, ele desaprendeu, ele não entende aquele idioma que está sendo utilizado. Eu vejo um conflito enorme, eu vejo o compositor falando um idioma que o público não sabe, o quê que ele esta falándo? Eu não aceito este tipo de coisa. Então eu acho que está com todo direito, bem justificado pela necessidade de expressão do cara e aquela, mas se pensarmos em termos funcionais, em termos de relação do público com o artista, é frustrante. Eu acredito numa relação em que a gente tenha que ver o que está acontecendo hoje em dia. O que tem a ver com o hoje em dia e o que a gente já falou, e essa música popular instrumental baseada no jazz, que e uma linguagem bastante interessante, complexa, difícil de se tocar, mas que eu vejo como a mais possível do compositor erudito buscar referências para ser compreendido, então o meu objeto de estudo como musicólogo é a música do início do século XX (Bartok, Villa-Lobos, Santoro, Hindemith). Não adianta compor como eles, mas a referência deles e muito forte para mim ao mesmo tempo que eu acho que pra você não ficar falando sozinho hoje em dia a gente tem que buscar essas coisas que tem o vigor da música popular indo ao encontro do que o público está pedindo.

Eu acredito piamente em uma fusão dessas duas coisas. Desde Beethoven já havia essa troca entre o popular e o erudito, de forma muito velada, mas havia.Como professor de composição eu percebi que o aluno que me procura no curso de composição é exatamente esse tipo de aluno, vindos da música popular, jazz, chôro, querendo saber o que a música erudita tem pra oferecer para ele melhorar. Aos poucos eu fui tentando buscar no repertório erudito aquelas coisas que pudessem ser melhor aproveitadas por essas pessoas, daí entram aqueles compositores que eu havia citado. Eu sugiro aos alunos experimentarem as técnicas que eu lhes passo, sem que eles percam suas características de composição, encorajo-os a comporem dentro do que eles acreditam.

7- Quais você acredita serem os próximos caminhos da música erudita? Há quem diga que ela vai se extinguir?

Você consegue contar nos dedos os compositores eruditos ao redor do mundo que conseguem viver compondo. De modo geral o compositor não ganha dinheiro compondo, com partituras, gravações. Quem vive de composição são aqueles ligados ao cinema, aquele que tem grana e compõe já... Boulez, parou de compor e foi reger... Stockhausen e bem sucedido nessa área, viaja o mundo inteiro quase como se fosse uma banda de rock, com seus músicos e fazem um trabalho original, que interessa a muita gente. Ele não é exatamente popular, mas em qualquer lugar do mundo o concerto dele vai estar cheio. Ele pode viver desses concertos, dar cursos. Eu acho que o caminho não e a extinção, mas a fusão, da forma que eu já coloquei, entre a música popular e música erudita, surgindo um gênero de música que vai ser difícil colocar uma barreira dizendo onde e erudito e onde e popular.

A maioria dos compositores vivem de apoio financeiro, ou seja, da universidade ou algum outro tipo de instituição, mas alguém sustenta esse cara. Isso e reflexo de que o compositor esta falando numa linguagem que o publico não entende.“Essa sonatina para oboé é a que mais representa essa salada que eu fiz para mim de buscar coisas no erudito, Santoro, Villa-Lobos, Strawinsky, Bartók, Debussy, e ao mesmo tempo, estar com a música popular, que eu gosto, na minha cabeça, então você vai ouvir essa música, e você vai ouvir, trechos que são muito tirados de um lugar e de repente você vai ouvir conseqüências que vieram de um outro lugar completamente diferente.”