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"You are better than Einstein!"- foi o malicioso comentário de Ruggiero Ricci para comparar qualidades artísticas de um cientista!
Em geral, poucos percebem a estreita ligação entre ciência e música. Não é relação direta, mas complementar. De acordo com Bosísio, a música é a única arte verdadeiramente dionisíaca. Entretanto, os estudos pessoais, a técnica do instrumento, e até mesmo as apresentações, são bastante apolíneas: o planejamento e método são fundamentais para a organização. Ora, método é característica fundamental das ciências exatas, enquanto que a intuição é cultivada através das artes. Por isso, os sábios antigos tinham razão em incluir as artes na ciência. Atualmente, um cientista medíocre está plenamente apto a fazer análises e organizar pesquisas; contudo, encontrará sérias limitações para criar soluções novas. De modo análogo, um músico medíocre tem visão limitada sobre as grandes composições, que são monumentos racionais, frutos de profunda pesquisa sonora e de formalismo retórico! Os discursos musicais mais emocionantes são exatamente os melhores planejados!
A qualidade mais irritante das ciências é a exigência da perfeição. Nas artes a perfeição é busca constante, mas também representa extinção. Qualquer coisa que tenha atingido a perfeição se tornará estática, e não terá para onde evoluir! A beleza está justamente no equilíbrio dinâmico, na luta de forças opostas; floresce na dúvida e ambiguidade, na constante busca e adaptação. A natureza é assim; por isso, é bela. Até mesmo o universo, nas suas leis quânticas, evolui com a probabilidade. Somente o erro e os riscos possibilitam mudanças. Este é o segredo da sobrevivência.
Um comentário. A busca da perfeição, nas Ciências Exatas, é consequência da necessidade de se fazer previsões cada vez melhores. Nas artes, um dos objetivos é provocar surpresa, contrariando quaisquer previsões!
Violino é jogo entre técnica e arte. Técnica é simplesmente a lei do menor esforço. Arte é a superação da natureza, a expansão do limite humano.
Técnica é a ciência do instrumento, é a metodologia de estudo, produção do som e execução. Entretanto, a técnica é consequência da arte, e não o contrário! O desenvolvimento dos recursos instrumentais só vem como resultado da evolução dos conceitos musicais. Tenho, pois, a convicção de que todos os problemas são facilmente resolvidos ao se delimitar os objetivos de uma obra. Isso só é possível conhecendo-se a composição inteira e percebendo as relações de causa-consequência, tão similares à linguagem falada!
Existem duas maneiras de se superar os problemas:
Sem dúvida o estudo pessoal é o mais importante e deve ser continuamente praticado. Entretanto, durante a execução, somos humanos e passamos pelas mais diversas situações desfavoráveis. É aqui que entra o sangue frio. É sempre mais importante ser convincente; para isso, necessitamos interligar todos os trechos da composição através da articulação adequada. Isso só é possível através do conhecimento do estilo (ambiente histórico-social) e das funções harmônicas (nossa gramática musical!), cujos estudos são principalmente teóricos e essenciais para a formação do verdadeiro artista!
Todos sabem que as crianças aprendem a técnica rapidamente e de maneira quase intuitiva. Muitas vezes não têm consciência da maravilha deste aprendizado, elas não estão preocupadas com isso! Simplesmente aproveitam a capacidade de adaptação enquanto o organismo está em desenvolvimento. Não tenho certeza se essa capacidade pode ser cultivada quando adulto. Está claro que os adultos têm mais dificuldade de aprender coisas novas, principlamente porque o cérebro pára de crescer. Entretanto, conheço vários músicos que mudaram de instrumento depois de adultos, e são bons profissionais. Com certeza isso seria inconcebível no começo do século! Isso merece um estudo mais profundo.
Também a questão do talento é controversa. Suzuki conseguia fantásticos resultados com inúmeras crianças, pois acreditava que todas tinham o mesmo potencial. Entretanto, sabemos que algumas pessoas têm mais facilidade. Se o potencial realmente for o mesmo para todos, isso pode ser um fenômeno cultural (especificamente no Japão).
O fato é que uma criança bem assistida, com a técnica corretamente aprendida, terá todas as ferramentas para desenvolver suas próprias idéias musicais quando adulta. Mas dificilmente será capaz de ser boa professora. A arte de ensinar é um desafio intelectual (científico!), pois requer análise contínua e formulação de soluções. A experiência acelera os resultados, mas o progresso só acontece com o uso de criatividade e formulação de idéias novas. Afinal, cada aluno é diferente, e tem necessidades diferentes.
Mais tarde comentarei sobre a preparação para o ensino. Apenas para concluir, os bons professores devem se sentir "discípulos" de Sócrates. O povo grego foi o mais bem sucedido de toda a história; quase todas as idéias que temos hoje são meras cópias do que os gregos fizeram. Porém, a riqueza de seus mitos e divagações causam hoje muitos mal-entendidos, especialmente porque falta bom-senso histórico e admiração pela grande capacidade criativa daquele povo.
Meu conselho para a época contemporânea em que faltam bons professores. O segredo da sobrevivência sempre foi a capacidade de adaptação. Na nossa sociedade, a adaptação significa capacidade de aprendizado (chamo a isso de adaptação de 2a. ordem!). Como nós devemos aprender a pensar? De acordo com Prof. Alfredo (Física/UFMG), o professor deve incentivar e libertar. Pressão não serve para desenvolver criatividade. Minha experiência indica que liberdade não se faz com cobrança: se os resultados não aparecem, é falha exclusiva do professor (falta de incentivo adequado). Frutos não aparecem em árvores podres. Cobrança cria uma falsa imagem de resultados, pois torna qualquer ação medíocre.
O perigo do incentivo irrestrito é a perda do rumo. O orientador deve possuir uma grande capacidade de síntese para traçar os objetivos intermediários. Talvez minhas primeiras aulas de violino tenham sido frustrantes justamente por causa do excesso de incentivo e da quantidade de informações. Nunca me incomodei por receber muitos ensinamentos de uma vez, pois tentava registrar o máximo e utilizá-las no devido tempo. No entanto, isso realmente pode se tornar confuso para as pessoas menos sintéticas.
A síntese é própria da organização, ao passo que a analogia abre caminhos para a criação de idéias.
Sendo dionisíaca, a música é uma linguagem essencialmente emocional. O violinista é um intérprete de mensagens alheias, cuja transmissão depende de um auto-controle satisfatório do músico. Por conseguinte, a formação musical não deve se restringir à prática do instrumento! Muitas vezes, inúmeras horas monótonas dedicadas à ginástica dos dedos serão completamente inúteis, pois em nada exercitam a vivência do estudante. A verdadeira prática do violino precisa do equilíbrio emocional cultivado nas relações sociais e nos momentos de lazer!
Sendo linguagem, a música somente existe se algo é necessário ser dito. Infelizmente, às vezes ouvintes e até mesmo músicos esquecem disso; neste caso, a arte não convence, mostra-se vazia. Por outro lado, para ter algo a dizer, é necessário muito estudo teórico além de dominar a técnica. A partitura é uma representação precária das idéias, sendo apenas um guia. O estudo teórico e histórico permite a localizar os pontos livres de cada obra, que permitem expandir os limites humanos (isso é arte!). Fazemos isso introduzindo elementos pessoais.
É interessante relatar uma experiência curiosa. Uma vez incluí no programa uma música que realmente me comove. Em geral, espera-se que os músicos toquem com mais expressividade as peças que mais lhe agradam. Parece até óbvio. Ao final da apresentação, aproveitei o contato com o público para fazer uma pequena pesquisa. As respostas surpreendentemente revelaram que a tal peça pouco foi notada!!! Ocorre o inverso, onde obras menos motivantes tornam-se, misteriosamente, do agrado geral! Parece que as boas obras só precisam ser tocadas "apenas corretamente" para produzir algum tipo de mágica. Sim: muitas vezes acho a comunicação entre músico e assistência tão enigmática, que considero realmente como sendo sobrenatural!
De qualquer modo, uma boa interpretação exige mais do que estudo. A introdução de elementos pessoais requer personalidade. Então pessoas tímidas nunca poderão ser oradoras? (Considero violino como um instrumento de retórica!). Pelo contrário, marcou-me muito uma apresentação de uma menina holandesa que só conversava através de sorrisos e monossílabos: transformou seu violino em som puro! Por isso, este assunto se torna bastante complexo. Parece-me que a parte importante da personalidade com relação à oratória é devido mais às atitudes do que aos gostos, medos, paixões, etc.
Quando se fala que o ambiente molda a personalidade dos jovens, muitas vezes esquecemos que grande parte da personalidade (especialmente responsável pelas atitudes e posições) é fruto de decisão pessoal. Tais decisões já começam a ser dadas desde criança, muitas vezes inconscientemente. Lembro que tomei minhas principais decisões aos 10 anos de idade, após alguns meses de reflexão (catalisadas pelas notas baixas no colégio!). Tais decisões foram tão meditadas que permanecem até hoje, e guiam várias de minhas posturas. Por conseguinte, estou convicto de que as pessoas podem educar suas emoções, seus gostos (só podemos gostar de algo depois de conhecê-lo!), e até mesmo adaptar-se à uma cultura diferente. Pior, até a moral pode ser adaptada! Entretanto, reconheço que a maioria das pessoas não consegue resultados neste sentido, talvez até por falta de consciência e força de vontade (preguiça). Não digo para o professor se tornar psicólogo, mas devemos, ao menos, esclarecer estes pontos aos alunos.
A História verifica fenômenos cíclicos somados a uma lenta evolução. A sociedade humana já enfrentou crises naturais, pragas, crises econômicas e sociais. Acredito que agora estamos atravessando uma crise moral. Da mesma maneira que os sintomas aparecem no doente, pode-se observar as alterações coletivas das pessoas.
Há uma forte tendência de as pessoas se isolarem, perdendo o contato humano. São várias razões: o grande aglomerado humano permite cada vez mais a perda da privacidade; a crescente tecnologia proporciona um conforto aparente e enganador que torna desnecessária a companhia humana. Além disso, o isolamente é erroneamente confundido com o ideal de auto-conhecimento, mas todos esquecem que isso só é possível unicamente através do contato humano!!! Ninguém consegue aprender nada sobre si mesmo se não estiver se testando nas relações sociais! Momentos de meditação são necessários, mas a passividade é tão construtiva quanto a morte! Uma consequência do isolamento é alienação generalizada (criando um círculo vicioso), que implica em perda de inteligência emocional.
Não sei o quanto o desenvolvimento da ciência tem a ver com este problema. Por exemplo, parece que a teoria de Einstein foi fatalmente transformada em filosofia do "relativismo". Aparentemente tem a vantagem de amenizar diferenças, mas perversamente distorce a moral fraca para obter vantagens em todas as situações.
De qualquer maneira, estamos diante de um fato novo. Surgiram novos tipos de classes dominantes, especialmente ligadas à informação. Isso agora é natural, pois a própria Economia Mundial já há muito tempo abandonou a matéria-prima concreta. Assim, a dominação se dá principalmente através da comunicação. E a alineação permite um controle muito grande da circulação de informação. É por isso que, cada vez mais, surgem movimentos como os da "Nova Era", propagados através de um marketing admirável.
As artes denunciam a degradação humana. No passado, as regras morais eram rígidas, historicamente ditadas pela igreja. A beleza da música era expor o conflito tentando vencer as regras impostas também na música. As regras foram vencidas cada vez mais, finalmente ultrapassadas, e agora simplesmente não existem mais imposições: conseguimos a liberdade! Evoluímos. Pergunto se ganhamos alguma coisa com isso? A música é melhor do que antes? As pessoas são mais felizes sem regras, completamente livres?
Agora que estamos nesta situação, significa que não temos para onde evoluir? Para não sermos tomados pelo desepero, devemos analisar a situação com cuidado. A Matemática nos fornece uma analogia belíssima fazendo uso do Caos e dos Fractais. Temos dois extremos: um, com possibilidades restritas pelas regras; outro, possibilidades infinitas (desordem, caos). Entre as duas pontas, existem infinitas gradações. O limite entre a ordem e o Caos é sutil: a riqueza da vida está exatamente neste limiar. A Natureza consegue brincar nesta região, pois está permanentemente se adaptando. Meu palpite é que, na busca pela liberdade, atravessamos este limite, e agora estamos desnorteados. É isso que fazem as pessoas que tentam convencer de que barulho é música, ou de que qualquer lixo é arte. Essas pessoas conseguem ainda mais sucesso com o apoio da nossa alienação e passividade.
Paradoxalmente, a liberdade só existe onde há prisão! Sem regras, não é possível a invenção. Sem limites, não há o que ser superado! Menuhin conta que, em suas digressões, pode ficar "enclausurado" no quarto do hotel, dedicando-se exclusivamente à música:
"Não é solidão. Muito pelo contrário, estes períodos de aparente isolamento são preenchidos por música inebriante e a inefável satisfação de procurarmos, e vermos se correspondemos a, um ideal de perfeição".- Menuhin, pag. 33
A solução é criar novas regras, pois as antigas já não servem (?). Isso exige, contudo, um esforço intelectual grande: a sociedade atual está contaminada pela alienação e preguiça mental. Esta é a razão da ruptura da comunicação entre público e artistas, um fenômeno sem precedentes na História da humanidade. (Existe um outro problema quanto à mudança sutil do objetivo das artes, que comentarei a seguir).
Minha sugestão é utilizar todos os meios de marketing para conscientizar. O esforço é grande, e provavelmente os resultados serão desastrosos para quem tentar contrariar a ordem imposta pela classe dominante. Não exatamente por causa de algum conflito particular, mas principalmente por causa do funcionamento do sistema. No entando, tenho a esperança de que qualquer tentativa neste sentido dará resultados positivos, e os sacrifícios serão lembrados e recompensados.
A definição de "arte" é importante e ilumina novos pontos de vista para explicar a frustração contemporânea do público leigo em relação às novas composições. Durante o período barroco, arte servia para imitar a natureza e melhorar sua beleza. Atualmente, "arte" não passa de uma linguagem de comunicação. Essa mudança de objetivos ocorreu em pouco mais de um século. Notamos que são dois objetivos diferentes, mas não excludentes, o que dissimula a causa real das divergências. Enquanto o público continua frequentando as salas de concerto para se divertir e apreciar a harmonia, o compositor quer transmitir sua singular concepção do mundo.
Claro que para imitar a natureza é preciso criar uma linguagem e definir suas regras. Mas o objetivo no barroco era claro: usar a dialética para estruturar algo que melhore a beleza da Natureza. Neste século criou-se uma nova linguagem que serve apenas para comunicar emoções.
É muito importante o conhecimento histórico de qualquer assunto, pois somente uma análise da evolução de todos os contextos permite rever conceitos e reformular opiniões. Estamos em um período singular em que músicos e atores, e todos os que trabalham com performance, têm um trabalho arqueológico a fazer. Como interpretar Shakespeare no teatro contemporâneo? A linguagem evoluiu muito, e as formas estruturais também se adaptaram a um mundo mais dinâmico e superficial. O mesmo acontece com a música: neste caso, ainda temos o agravante de os instrumentos terem se modificado também!
Temos duas alternativas:
A segunda idéia é a que ganha maior preferência da sociedade. A maior crítica a estes movimentos de música antiga é a revitalização de uma arte cristalizada e sem vida. Entretanto, essa fuga histórica pode ser um sinal da insatisfação da sociedade com o mundo moderno.
A primeira idéia foi a solução adotada no período Romântico, e aparentemente não serve para os dias de hoje. O que acontece é que as coisas mudaram neste último século, mas os intérpretes continuam utilizando uma linguagem ultrapassada e fazendo concessões prejudicias. Não vejo possibilidade de haver um meio-termo: ou é feita uma completa releitura das obras antigas para adaptação contemporânea, ou a linguagem deve permanecer fiel ao original. Minha opinião é que a segunda alternativa mostra resultados de sucesso. Por outro lado, não conheço ainda nada que seja verdadeiramente contemporâneo e que se qualifique dentro do primeiro grupo.
Independente da alternativa escolhida, o trabalho arqueológico é fundamental. Gostaria apenas de mencionar alguns problemas interessantes. Ao lermos documentos originais da época estudada, verificamos inúmeras contradições entre as diversas fontes. Por isso, nada pode ser lido de modo absoluto e rígido.
Uma questão que sempre me vem à cabeça. Shakespeare conta, em "Much ado about nothing", que Giga é uma dança "selvagem, agitada e bizarra". Um grande escritor não iria contar algo que fosse óbvio. Então, podemos acreditar nessa afirmativa? Ou será que ele queria criar polêmica sobre a nova dança de sua própria terra?
É claro que ninguém escreve o que todos sabem. Neste caso, o não-escrito vale mais que o escrito!
Por que violino? Por que música e arte?
Como se preparar para a Pedagogia?