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Publicado eletronicamente em Março de 2002, no site www.multarte.com.br.
Muito vem se reclamando que a música popular tornou-se comercial, perdendo o brilho e espontaneidade, que a música erudita já é batida, que a contemporânea não agrada, ou é fria demais, ou está longe da realidade nacional.
Estas preocupações, entretanto, não são exclusivas dos artistas brasileiros, mas de todos os povos que estão ampliando seus horizontes. Aos brasileiros ainda resta uma característica singular: a rica criatividade que se origina do nada, que faz a todos (especialmente aos europeus) se maravilharem e se contagiarem com a alegria de viver. É essa essência extraordinária da arte popular que ainda faz o Brasil manter seu destaque no meio desta globalização selvagem.
Escrevo isto pensando como um músico, mas a música é apenas uma projeção das demais manifestações artísticas, de modo que estas considerações valem para as outras áreas.
No Brasil, o nacionalismo musical existiu desde a colônia, mas se inflamou principalmente com Villa-Lobos, que fez um esperto trabalho de "marketing cultural" no exterior. Ele documentou e criou composições com os melhores recursos de que dispunha: justamente a técnica européia. De certo modo, até hoje carregamos esta herança, estas correntes que nos amarram ao velho mundo. Grandes críticas são feitas até hoje: a música erudita brasileira teria apenas adaptado a música folclórica dentro das formas européias, para poder ser exportada. Entretanto, a origem de nossa cultura não é também européia?
Aqui podemos olhar o outro aspecto da nossa música: a popular. Ian Guest conta que a única diferença entre música popular e erudita é: "a popular reflete um momento e um tempo; a erudita, todas as épocas e todos os lugares". Refiro-me aqui à arte popular não como à comercial, mas sim à folclórica! Ocorre um fenômeno interessante: a música popular evoluiu de modo satisfatório com relação à nossa história, mas se distanciou da teoria. Já a música erudita vem se distanciando do público, mas tecnicamente evoluiu muito!
A arte contemporânea parece propor mais problemas do que respostas. Ainda bem que seja assim! A principal questão que me incomoda neste momento: é possível criar uma arte genuinamente nacional? O que seria exatamente uma técnica nacional? Está claro que o Brasil é ainda bastante novo para se perceber ligações culturais com suas diferentes origens, mas também é novo o suficiente para inventar e construir novas bases, novas tradições, novas estéticas. Pessoalmente, ainda não vejo respostas reveladoras no meio musical, mas conheço artistas plásticos que podem inspirar caminhos singulares. De acordo com Marlene Godoy, uma criação é verdadeira quando o artista (ou mais exatamente, o artífice) volta às suas origens.
Finalizando, recordo que este artigo é apenas uma humilde inquietação dos meus pensamentos. Todos os comentários fundamentados são sempre bem-vindos!
Zoltan Paulini
Bacharel em Física pela UFMG, é compositor e violinista da OSTN (Brasília).