“Tour” Histórico pela Música

Desde as origens da música antiga até a loucura da música contemporânea.

Ciclo de 3 palestras por Zoltan Paulinyi (Abril/Maio de 2002)

 

Vimos que só temos alguma noção histórica segura da sonoridade a partir do renascimento, por causa da literatura e até mesmo de alguns instrumentos que sobreviveram estes séculos. Daí para trás, é tudo mais especulativo. Em geral, observamos a seguinte evolução musical (simplificando alguns hiatos, principalmente os formais):

Parâmetro

Descrição

instrumental

sofisticação/diversificação crescente

harmônico

dissonância crescente

sonoro

intensidade crescente (alteração na qualidade)

formal

complexidade crescente

lírico

angulação crescente da linha melódica

 

A definição de arte começou com o ideal de belo, tornou-se um meio de expressão, e hoje já se fala em quantidade de informação. Nenhum destes aspectos é exclusivo; por isso, há tanta confusão ao se avaliar uma obra de arte contemporânea.

 

Vimos como a Arte é importante e humanizante. O Papa nos convida a todos sermos, pelo menos, artífices da vida. Fujamos da mediocridade para fazermos arte verdadeira: algo primordialmente bem feito, interessante (bonito ou até repugnante…) e novo! Excepcionalmente há um fenômeno contemporâneo que é o de música antiga: mas é tão antiga que já foi esquecido e se torna novidade. Comecemos transformando nossas atitudes numa obra de arte.

 

Vimos, em especial, que a indústria fonográfica é maior do que a farmacêutica, e existem mais cursos acadêmicos de música do que em ciência de alimentos! A música é o meio mais eficaz para a socialização, desde as tribos mais primitivas até as mais evoluídas (!). O cultivo da música (educação musical) está relacionado com desenvolvimento intelectual. Apesar de ter se tornado muito especializado, o verdadeiro músico (e todo artista/artífice) precisa contribuir para a sociedade (mostrar seu trabalho), estudar (crescimento individual), e criar. A criação é o que exige mais tempo, gera mais cobrança, e oferece maior chance para a mediocridade.

 

A música é realmente um instrumento das elites, das quais muitas vezes somos vítimas! Todas as campanhas de marketing, os filmes, toda essa inundação informativa está enfeitada com pobreza artística extremamente alienante. Por isso é importante não ficar estático nem passivo, estudar tudo o que foi feito e impulsionar as coisas boas. O “belo” ainda não está bem definido. Por que deixar os outros definirem isso para nós?

 

Referências: os discos podem ser facilmente encontrados pela Internet. Olhar www.amazon.com, ou outros sites (cdnow, cdconnection, mp3, etc.). Os discos brasileiros podem ser encontrados na Funarte, ou através de catálogos especializados, como o da Revista Concerto.

 

1. Gregorio Paniagua e Atrium Musicae de Madrid, “Musique de la Grèce Antique” — contém a execução de mais de duas dezenas de documentos arqueológicos. São execuções boas, mas com instrumental limitado. Uma vez escutei um disco antigo do Petrous Tabouris com os mesmos documentos, mas numa interpretação muito mais ousada e viva, apesar do risco de ultrapassar os limites da obra.

 

2. Petrous Tabouris, “Hellenic Musical Instruments”, volume 15: Ancient Kithara. — Contém apenas dois documentos, as demais faixas são composições próprias. Disco interessante, sem maiores pretensões.

 

3. Suzanne Haïk Vantoura, “La Musique de la Bible révélée”. — Documentos importantes do Antigo Testamento. É o disco musicalmente mais pobre que conheço, apesar da tentativa de ser fiel às descobertas.

 

4. Anima, “Espiral do Tempo” — Grupo de Campinas, responsável pela divulgação (autoria?) da teoria  de “Reminiscências Aleatórias”, segundo a qual o folcore congelou a arte barroca e medieval na cultura brasileira. A evidência mais concreta seria a própria construção e afinação da rabeca.

 

5. Jordi Savall e La Capella Reial de Catalunya, “El Cançoner del duc de Calabria” — disco muito bonito com músicas do séc. XVI. Notar a presença da brasileira Eunice Brandão neste grupo conceituado.

 

6. The Hilliard Ensemble, “Carlo Gesualdo - Tenebrae”. Músicas sacras do final do séc. XVI. Gesualdo não é representativo deste estilo. Ao contrário, é apenas um notável acontecimento que não gerou maiores desdobramentos históricos.

 

7. XI Festival Internacional de Música Colonial Brasileira e Música Antiga de Juiz de Fora, “Orquestra Barroca”. — É um dos mais importantes movimentos de música antiga no Brasil.

 

8. Ricardo Kanji, “História da Música Brasileira” período colonial vol. II — Projeto ambicioso. Contém boas faixas, mas peca pela mistura de grupos modernos com os de música antiga.

 

9. BBC vol. 9 n. 6, ano 2001, “Mozart: Trio K 498 / Tchaikovsky: Souvenir de Florence” — Os discos da BBC são encartes da revista “BBC Music Magazin”.

 

10. Quarteto de Brasília, “Brasil 500” — Henrique Oswald foi compositor carioca de ascendência suíca e italiana. Seu estilo segue o romantismo tardio europeu, do final do séc. XIX.

 

11. Debussy, “Sonata para violino e piano”, “La Mer”, etc. — maior exemplo do impressionismo e do estilo francês: sutil, às vezes dançante, sempre elegante mesmo à procura do exótico.

 

12. Berg, “Concerto para violino”, Óperas “Wozzeck” e “Lulu” — o coroamento do atonalismo por Schoenberg em 1905 marca o auge do modernismo. Berg foi seu melhor discípulo.

 

13. Bartók, “6 Quartetos” — Juntamente com Kódály, iniciou o resgate da música folclórica nacional, e influenciou todos os demais movimentos nacionalistas do séc. XX. Bartók não negou o atonalismo, mas sugeriu uma outra resposta estética às questões contemporâneas, uma espécie de “volta às origens”. No Brasil, um movimento semelhante aconteceu com Villa-Lobos, que fez um belíssimo e importante incentivo à educação musical, assim como Kódály fez na Hungria. Hoje não existe analfabeta musical na Hungria, mas a política cultural do Brasil está à deriva.

 

14. Varèse, “Density 21.5” - para flauta solo. Belíssimo exemplo de atonalismo lírico.

 

15. Philip Glass, trilha sonora dos filmes “Show de Truman”, “Dalai Lama”, e do Grupo Corpo - Representante do minimalismo, uma resposta em direção oposta à evolução que se observou neste século. É um tipo de música austera, mas perigosamente alienante. Curiosamente, o folclore brasileiro é rico em motivos para alimentar o estilo.

 

16. György Ligeti, “Melodien”, “Chamber Concerto” - Húngaro, um dos grandes representantes da van-guarda, hoje com 79 anos de idade.

 

17. Mestre Salustiano, “Sonho da Rabeca” - Documentos riquíssimos de Pernambuco, apoiado por Ariano Suassuna, que é um dos grandes responsáveis pela valorização da cultura nacional.

 

18. Zé do Côco do Riachão, “Vôo das Garças” - Rabequeiro e violista. Regional de Minas Gerais. Pode ser encontrado em lapa@metalink.com.br (Lapa Cia Ação Cultural SC Ltda).

 

19. Orquestra de Câmara Sesiminas/Musicoop, “Sortilégios da Lua” — Músicas de Oiliam Lanna, Ernst Mahle, Ernani Aguiar e Osvaldo Lacerda.

 

20. UFBA, “Música Eletro-acústica na Bahia” - A maioria das composições é fraca, são mais exercícios do que propriamente obras de arte. Mas é um grupo brasileiro importante neste gênero. Este CD é o primeiro fruto de mais de 10 anos de pesquisa e de implantação do doutorado na Universidade da Bahia.

 

• Livros:

a) Candé, Roland de, “Histoire universelle de la musique” — Havia uma boa edição em Português, agora esgotada: História Universal da Música.

b) vários autores, “Dicionário Grove de Música - edição concisa”, Jorze Zahar Editor.

----------------

Zoltan Paulinyi

paulinyi@yahoo.com

http://come.to/paulinyi    http://surf.to/paulinyi      http://get.to/paulinyi



 

“Tour” Histórico pela Música

Desde as origens da música antiga (grega, judaica) até a loucura da música contemporânea.

 

guiado por Zoltan Paulinyi

 

 

Datas: 18 e 25 de Abril, 2 de Maio de 2002

(às Quintas-feiras).

Horário: 17:30 às 18:15

Requisitos: apenas gostar de música!